Vaidade - Uma inimiga silenciosa
Dentro de todas as áreas de trabalho e profissões, de todas as culturas e povos, de todas as civilizações e séculos da história ela esteve presente. Com as mais diversas faces, sob inúmeros disfarces diferentes, a vaidade acompanha a alma e natureza humana.
Há quem diga que ela faz parte do temperamento ou personalidade, outros que afirmem que floresce com o convívio social e as necessidades de auto-afirmação. De uma forma ou de outra, é um aspecto que impulsiona os homens nas suas relações para com o mundo e para consigo mesmo.
"Não temos alegria, se está descontente a vaidade; da mesma sorte, que a desgraça não aflige, tanto, quando se acha a vaidade satisfeita."
"Todas as paixões dão conosco passos iguais no caminho da vida: logo que vimos ao mundo, começamos a ter ódio ou amor, tristeza ou alegria: só a vaidade vem depois, mas dura sempre. " (Matias Aires)
Matias Aires, brasileiro, é considerado um pensador universal porque, quando coloca a vaidade como centro de suas meditações sobre a vida e como a origem de toda a sua compreensão, situa-se no mesmo nível de outros pensadores que, a partir de temas específicos, estudaram o homem e suas relações sociais.
Nicolao Maquiavel, em O Príncipe, explica, a partir da luta pelo poder político e o seu exercício, as relações humanas - tanto entre indivíduos, como entre coletividades; o pensador espanhol Baltazar Gárcian, discorreu a partir de aforismos sobre "A Prudência", no livro que intitulou: "Oráculo Manual y Arte de Prudencia" (editado em português como "A Arte da Prudência") e ainda Erasmo de Roterdan, pensador flamengo, mestre da Universidade de Louvain, amigo de Thomas Morus, no seu livro "Elogio a Loucura", vê a "loucura" com uma energia criativa nas ações humanas.
Matias Aires não escolheu a angústia, nem o significado do existir. Ao partir da abordagem centrada na "vaidade" como a grande paixão humana, faz uma meditação universalista para entender o homem e a vida. Para ele, a vaidade não é uma força negativa, não é uma paixão entre as demais, é sim uma paixão sobre ou sob as demais. Por exemplo: a vaidade de serem (os homens) leais os faz obedientes; a vaidade de serem amados os faz benignos; a vaidade da reputação, os faz virtuosos.
Para ele, a vaidade vai além da existência: Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os últimos suspiros estamos dispondo a nossa pompa fúnebre como se em hora tão fatal o morrer não bastasse para a ocupação.
Sabemos que a mais peremptória afirmação do vaidoso é dizer que não é vaidoso. Para Matias Aires a vaidade é a mais escondida das paixões. Os valores são mensurados a partir do grau em que ela se apresenta. Também as coisas e os acontecimentos recebem a mesma proporcionalidade: A nossa vaidade é a que julga tudo: dá estimação ao favor e regula os quilates à ofensa; faz muito do que é nada; dos acidentes faz substância e sempre faz maior tudo que diz respeito a si.
De todas as paixões, a que mais se esconde é a vaidade; e se esconde de tal forma, que a si mesma se oculta e ignora: ainda as ações mais pias nascem muitas vezes de uma vaidade mística, que quem a tem, não a conhece, nem distingue: satisfação própria, que a alma recebe, é como um espelho em que nos vemos superiores aos demais homens pelo bem que obramos, e nisto consiste a vaidade de obrar o bem.
(...) A ingratidão, de quem recebe um benefício, é efeito da vaidade; porque sendo o benefício uma espécie de socorro, sempre indica superioridade em quem o faz, e necessidade naquele que o recebe; por isso a lembrança de um benefício humilha e mortifica a nossa vaidade, e se alguma vez nos lembra, é porque a natureza se acusa de sentir-se ingrata. A dívida leva consigo um desejo da extinção do seu objeto.
Na mesma linha de reflexão o que vem do outro e que fere a vaidade, desperta conflitos e sentimentos de revolta, por senti-la humilhada: A maior injúria é o desprezo, porque o desprezo se dirige e ofende a vaidade. (...) A perda da honra aflige mais que a da fortuna. Poucas vezes se expõe a honra por amor a vida, e quase sempre se sacrifica a vida por amor a honra. Não se esquece o ódio, que teve por princípio a vaidade ofendida.
Apesar de afirmar que a vaidade é um mal comum, Matias Aires também classifica e hierarquiza de certa forma, a vaidade, segundo o tipo, quando faz referência àqueles que se dizem donos da verdade: A mais vã e tola das vaidades é a que resulta do saber, porque no homem não há pensamento que mais o agrade, do que aquele que o representa superior ao demais, e superior no entendimento, que é nele, a parte mais sublime. Procuramos ser objetos da memória e assuntos da fama: o nosso fim é querermos que se fale em nós. O aplauso é o ídolo da vaidade.
Com relação à Justiça, Matias Aires também pondera: A ciência de fazer justiça é donde a vaidade é mais perniciosa. (...) Quantas injustiças não terá feito a vaidade de fazer justiça!
Tomás de Aquino define a vaidade (um dos sete pecados capitais) como a glória vã (daí, vangloriar-se). E a glória pressupõe esplendor e a admiração que esse esplendor causa aos pares de quem a possui. Aos olhos cristãos, somente Deus possui a verdadeira Glória, mas ao homem a quem é dada a glória como uma atribuição divina, ou que é glorificado por um feito, deverá buscar o bem comum por meio desse dom.
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu Reino fica além...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém.
O mundo! O que é o mundo meu amor?
O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos, pão bendito.
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o infinito!...
(Florbela Espanca in "Charneca em flor")
A. Schopenhauer, em Dores do Mundo, (tradução no Brasil em 1959) afirma:
"A diferença entre a vaidade e o orgulho consiste em que este é uma convicção bem firme de nossa superioridade em todas as coisas; a vaidade, pelo contrário, é o desejo que temos de despertar nos outros esta persuasão, com a esperança secreta de chegar por fim a convencer a nós mesmos.
O orgulho tem, pois, origem numa convicção interior e, portanto, direta; a vaidade é a tendência de adquirir a auto-estima do exterior e, portanto, indiretamente. A vaidade é faladora, o orgulho silencioso. Mas o homem vaidoso deveria saber que a alta opinião dos outros, alvo de seus esforços, se obtém mais facilmente por um silêncio contínuo do que pela palavra, mesmo quando há para dizer as coisas mais lindas.
Não é orgulhoso quem quer; pode-se, no máximo, simular o orgulho, mas, como todo papel de convenção, não logrará ser sustentado até o fim. Porque é apenas a convicção profunda, firme, inabalável que se tem de possuir méritos superiores e valor excepcional que dá o verdadeiro orgulho. Esta convicção pode até ser errônea, ou fundada apenas em vantagens exteriores e de convenção, mas, se é real e sincera, em nada prejudica o orgulho. Pois o orgulho tem raízes na nossa convicção e não depende, assim como sucede com qualquer outro conhecimento, do nosso bel-prazer.
O pior inimigo, quero dizer, o seu maior obstáculo, é a vaidade, que apenas leva o indivíduo a solicitar os aplausos alheios para, em seguida, formar uma opinião elevada de si mesmo; ao passo que o orgulho supõe uma opinião já firmemente arraigada em nós. Há quem censure e critique o orgulho; esses sem dúvida nada possuem de que se orgulhar."
O orgulho pode ser, por sua vez, considerado como uma chaga terrível responsável pela derrocada de comunidades inteiras. É um grande vilão, e acompanhado de sua fiel companheira, a vaidade, transitam com muita facilidade entre os grupos e entre as equipes de trabalho, podendo destruir qualquer possibilidade de convívio. Pior ainda é quando agem com sutileza e não mostram seus tentáculos e intenções. São inimigos silenciosos.
Estudando bem o gênero humano, por dentro e por fora, porque lhe vemos o físico e o que se passa no espírito, portanto analisando o gênero humano, aqueles que vivem na Terra sujeitos às vicissitudes do tempo, no contato com os homens bons ou maus, em fim em contato com tudo de bom e de mau que no mundo existe, chegamos a conclusão de que todos, ou quase todos, se adaptam e se sentem à vontade quando satisfeita a sua vaidade, as suas pretensões, e sobretudo os seus interesses. Para pessoas que buscam uma evolução interior, o tempo corre, os anos passam-se, e a humanidade em vez de caminhar com os olhos abertos, com a mente desanuviada, tornando boa nota nas tremendas e dolorosas lições recebidas, caminha ainda com ilusão, ouvindo os cânticos dos espertos que lhes apresentam melodias suaves, alimentando-lhes a vaidade.
Dentro da mitologia grega encontramos um famoso exemplo da vaidade humana - Narciso. A versão mais famosa da lenda de Narciso é a do poeta romano Ovídio (-43/17).
Eco, uma ninfa dos bosques e das fontes, era de uma tagarelice irrefreável. Ia sempre ao Olimpo, a pedido de Zeus, para distrair Hera com sua conversa enquanto o rei dos deuses e dos homens dava suas voltinhas entre os mortais (ou melhor, entre as mortais). Hera, porém, acabou descobrindo o ardil e puniu a pobre ninfa tirando-lhe o dom da fala e condenando-a a repetir apenas as palavras que ouvia dos outros.
Narciso, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope, era um moço de grande beleza, porém insensível ao amor. Muitas jovens e diversas ninfas se apaixonaram por ele, mas não tiveram nenhum sucesso. A ninfa Eco, com alguma dificuldade, declarou-lhe também seu amor e ficou tão desesperada ao ser repelida que começou a definhar: o belo corpo desapareceu e por fim restou apenas a sua voz.
As demais ninfas, revoltadas, clamaram por vingança e foram atendidas por Nêmesis. Certo dia, durante uma caçada, Narciso se debruçou sobre a fonte de Téspias, perto do Monte Hélicon; ao contemplar a superfície da água apaixonou-se pelo que viu, isto é, por seu próprio reflexo. Indiferente a tudo, o moço não mais saiu dali e nem mesmo conseguia tirar os olhos de sua imagem. Acabou morrendo de inanição e, no local de sua morte, brotou a flor chamada narciso.
Analisando dentro da realidade dos nossos tempos, quantos profissionais não acabaram dessa mesma maneira? Hipnotizados pela própria imagem? Quantos não se perdem numa visão sobre si mesmo e acabam por não enxergar qualquer outro aspecto vindo de uma outra forma de análise externa?
Não há nenhum grande fracasso na história, ou tragédia de grande dimensão e crueldade que não tenha sido conduzida por pessoas cuja constelação psíquica não tivesse como eixo central uma gangorra onde, numa ponta estava uma diminuta auto estima e, na outra, o narcisismo e onipotência (mecanismos compensatórios).
Convém lembrar outra característica básica da personalidade narcísica: é a condição de se interessar apenas provisoriamente por outro ser humano (quando consegue fazê-lo). A sua capacidade de vinculação é desviada para objetos que pode controlar totalmente: coisas, causas, animais, natureza e pessoas dependentes ou submissas. O interesse de tais pessoas tem feição radical, fundamentalista e costuma absorve-las totalmente, sendo vistas pelo senso comum como "fanáticas" ou fundamentalistas. Sua liderança costuma ser "carismática" e fascina personalidades de Ego empobrecido e que se engrandecem na identificação com o Líder grandioso e com as Organizações a que aderem e cujos objetivos são sempre grandiosos e controladores.
Talvez a lembrança mais conhecida desse tipo de personalidade e atuação seja a de Hitler que, com seu messianismo e grandiloqüência, fascinando as massas constituídas de pessoas com auto estima destruída pela derrocada alemã, foi inicialmente manipulado pela burguesia alemã e posteriormente... deu no que deu.
Mais recentemente, tivemos a experiência do Camboja onde o Kemmer Vermelho, com ideologia marxista e fundamentalismo, realizou uma das piores e mais sanguinárias experiências do século passado. São temas cujo aprofundamento são urgentes, neste início de século, na nossa sociedade.
"Desse modo, o narcisista sente que tudo que é valioso nos objetos externos e no mundo externo é parte dele ou é controlado de forma onipotente por ele."
(In Narcisismo de morte e pulsão destrutiva - Herbert Rosenfeld, Ed. Imago)
Autores psicanalíticos consideram a Psicopatia como uma grave patologia do Superego como sendo uma síndrome de Narcisismo Maligno, cujas características seriam a conduta anti-social, agressão ego-sintônica dirigida contra outros em forma de sadismo, ou dirigida contra se mesmo em forma de tendências automutiladoras ou suicidas sem depressão e conduta paranóide.
A estrutura de tipo narcisística do psicopata teria a seguintes características: auto-referência excessiva, grandiosidade, tendência à superioridade exibicionismo, dependência excessiva da admiração por parte dos outros, superficialidade emocional, crises de insegurança que se alternam com sentimentos de grandiosidade.
Portanto, dentro das relações de objeto (com os outros), seria intensa a rivalidade e inveja, consciente e/ou inconscientemente, refletidos na contínua tendência para exploração do outro, incapacidade de depender de outros, falta de empatia com para com outros, falta de compromisso interno em outras relações.
Pelo fato da vaidade estar presente na natureza humana, podemos afirmar que ela pode ser vista em todas as áreas profissionais e, ao se analisar os valores sociais e padrões comportamentais, pode ser encontrada também na forma de culto ao corpo ou supervalorização da aparência.
Seriamos invariavelmente melhores se, ao invés de nos preocuparmos o tempo todo em ser melhor do que outras pessoas, preocupássemos em ser cada dia melhor, nos superando e superando traumas e problemas numa busca pela evolução interior.
Não há nada mais belo que a humildade. |
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Vaidade-Uma inimiga silenciosa
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